quarta-feira, 10 de junho de 2009

Sesmaria de Santa Rita.

Mapa de José Marinho de Araujo. Editado por FHOAA

Paróquia de Santa Rita de Jacutinga MG

PARÓQUIA
DE
SANTA RITA DE JACUTINGA por José Marinho de Araújo.
Digitalização e organização: Fátima Helena Oliveira de Araújo e Araújo.

DEVASSAMENTO DO TERRITÓRIO.
O local onde se assenta a cidade de Santa Rita de Jacutinga pertencia as Áreas Proibidas do Sertão da Mantiqueira, cujas terras deviam continuar incultas, para não permitir o extravio do ouro das Minas para o litoral.
Só a 11 de junho de 1781 é que o Governador da Capitania de Minas Gerais partiu de Vila Rica, entrando em suas matas, vindo abarrancar as margens do rio do Peixe, onde deixou maior parte das pessoas que o acompanhavam.
Nesse lugar, fundou um arraial - Dores do Rio do Peixe - hoje ci­dade de Lima Duarte. Às pessoas que acompanhavam o Governador, foram di­vididas as terras da região.
Mal grado a vigilância e patrulhamento, nessa ocasião, já existiam picadas abertas pelas matas. Os contrabandistas de ouro e diamante encontravam, nestas paragens, um meio fácil de burlar os registros.
Dom Rodrigo José de Menezes era o Governador da Capitania de Minas Gerais. Regressando a Vila Rica, mandou o seu ajudante de ordens, Francisco Antônio Rabelo, voltar à região, trazendo ordens para fazer os exames necessários nestes Matos Gerais do Rio Preto, procurando o meio mais seguro de impedir os aludidos extravios, e, ao mesmo tempo, indagar das pessoas que tinham pedido licença para, lavrar a terra e do ouro que tinham descoberto.
O coronel Manoel Rodrigues da Costa, em carta de 24 de outubro de 1781, dirigida a dom Rodrigo José de Menezes, dizia que:
"... Dos ribeiros do Bananal e Bom Sucesso, nas cabeceiras do Rio Preto há boas esperanças de jornadas, pelo que dizem os que agora de lá vieram, e alguns fazem roças; porém o receio do gentio, não dá lugar a alargarem-se e na conquista do dito gentio, há de ser preciso cautela, sem que se mantenha como de costume. Sim, que se conservem nas suas vivendas, porque fazem Roças, têm Bananais, em usam de todas as plantas, só falta à língua para persuadi-lo à paz, a qual se há de se solicitar e não é muito brava, o que faz é fugir; e que, pelo que me asseguraram, a pouca distância, por de traz das cabeceiras do rio do Peixe, estão as primeiras aldeias, e as ma­is estão encostadas a Paraíba e giram pelo rio Preto”.
Em 24 de agosto de 1800, o guarda-mor do Registro do Rio Preto, Francisco Dionísio Fortes, cedia cento e doze datas, no lance Palmital, a margem do rio Preto, próxima a atual cidade mineira de Passa Vinte, considerada- "um subúrbio do arraial do Rio Preto”, onde existia um presídio. Aí foi fundada a Sociedade do Palmital, com o fim de se minerar, em corporação, evitando, assim, o assalto do gentio.
Para se chegar ao Palmital, teria que se passar pelas terras da atual cidade de Santa Rita de Jacutinga. Transitando por estas terras o guarda-mor Francisco Dionísio Fortes faz concessões de terras e águas minerais, exis­tente no município. Doação aos mineradores que por aqui passavam. O lugar era conhecido por Subúrbios do Rio Preto ou Paragem do Pio Preto.
Com a fundação da atual cidade de Bom Jardim de Minas, pelos Lacerda, foram-lhe concedidas sesmarias que se estendiam pelo território do atual município de Santa Rita de Jacutinga. Inácio Ribeiro do Vale, de família fundadora do município de Andrelândia, instalara a fazenda "Moinhos", na sesmaria de São Lourenço da Jacutinga. Nesse sítio se fez a experiência da cultu­ra da cana de açúcar.

O POVOAMENTO.

O povoamento da atual cidade de Santa Pita de Jacutinga se inicia. Zacarias Dias da Silva obtém, do Governador da Capitania de Minas Gerais - Ber­nardo José de Lorena (Conde de Sarzedas), uma grande sesmaria. Traz a escritura à data de 20 de julho de 1802. As suas terras se estendiam pelas montanhas da atual sede municipal. “Foram, elas, posteriormente, divididas aos primeiros povoadores do local”.
Zacarias Dias da Silva residia em sua fazenda, às margens do rio Preto, no, local que ainda, até hoje, conserva o seu nome - Zacarias. Foi sepultado no cemitério da ermida de Santa Rita da Jacutinga, em 27 de abril de 1835.
Francisco Rodrigues Gomes é considerado o fundador de Santa Rita de Jacutinga. Fincou sua casa, num dos claros da floresta que cobria os morros da atual cidade. Trouxe, consigo u' a imagem de Santa Rita de Cássia, padroeira de sua terra de nascimento- Santa Rita de Ibitipoca - localidade encravada num dos altos da serra da Mantiqueira. O nome de Santa Rita foi dado à terra escolhida pelo seu condutor. Santa Rita da Jacutinga é o tratamento exato à Cidade. A carta da lei a que a elevou a paróquia traz essa denominação. Assim era conhecida desde os primórdios de seu povoamento e, assim aparece nos documentos oficiais encontrados pelos arquivos.
Chico Gomes, homem dedicado ao amanho da terra, resolvido a. trocar o torrão de seu nascimento pelas matas virgens dessa localidade, fundou o arraial. Descortinava-se de sua, residência uma boa vista; daí o' nome de Boa Vista ao local. Depois Boa Vista dos Gomes. Essa denominação não pereceu, por completo, pois, até nos dias da hoje aparece, para designar as terras da grande fazenda. Com a presença da imagem de Santa Rita na nova residência, os seus primeiros habitantes passaram a denominar o povoado de Santa Rita.
Sentiu-se orgulhoso Chico Gomes. O nome de Santa Rita se tornou comum à terra que povoara. Uma homenagem a terra aonde vivera os melhores dias de sua existência - os dias de sua meninice, dias em que embalara os seus sonhos. Lá deixou os seus pagos para abrir a civilização um novo núcleo de povoação, que foi de Santa Rita de Jacutinga.
Havia grande quantidade da ave "Jacutinga", pelas paragens. Fácil foi adicionar esse nome ao da santa, ao exemplo de novas povoações que, vinham se fundando. “Ficou estabelecido o nome para o arraial incipiente – Santa Rita da Jacutinga”. Jacutinga, do tupi-guarani, traduzido para o português, quer dizer: "Aquilo que come caroço e tem a cabeça, branca". Trata-se de um jacu muito maior a espécie comum e tem na cabeça uma, poupa branca. É apreciada ave de caça. Na zona que estudamos havia grande quantidade dessa ave.
Jacutinga deu o nome ao rio e ao povoado. Fugindo a regra geral, a ave é I que deu o nome ao lugar. O nome ao rio que banha a cidade veio depois. A denominação certa seria "Santa Rita da Jacutinga". Mas, por eufonia, se deve escrever de Jacutinga. Do, não. Estaria certa se fosse o rio, que corta a cidade, o e cedente do nome.
Francisco Rodrigues Gomes faleceu em 14 de dezembro de 1843, deixando numerosa descendência. Esta se fixou, definitivamente, nas terras da fazenda
Boa Vista dos Gomes, promovendo o povoamento. Todos os seus membros dedicaram-se a agricultura, fazendo plantações, cercando pastagens e construindo novas moradias para os novos casais saídos da casa de Chico Gomes.

PRIMITIVOS DONOS DA TERRA

Atualmente não existem vestígios de Tribos indígenas no município.
Pouco a pouco, o elemento indígena que dominava a zona foi cedendo terreno ao homem civilizado, dedicado ao trabalho de povoá-la. Mas aprendeu um pouco de agricultura com os nativos.
PITÁS eram os índios que viviam entre a serra da Mantiqueira e o vale do rio Preto, terras onde se assentam a cidade e município de Santa Rita de Jacutinga.
Mas, os que habitavam as matas que foram desbravadas, denominavam-se “PURÌS”. Índios mansos dedicados a agricultura, especialmente a da bananeira, de cuja fruta se alimentavam.

Quanto "Pitás e Purís" pertenciam ao mesmo ramo os Coroados, os índios da zona.

O desaparecimento do primitivo dono da terra deu-se precisamente na ocasião em que chegaram os primeiro povoadores, por volta da 1800.


FUNDAÇÃO DA CAPELA

Em 1832, funda-se a capela. Foi ela anexada a paróquia de Nosso Senhor dos Passos do 'Rio Preto, que se constituíra em município, em 15 de abril de 1844, pela lei provincial nº 271.
O art. 3º,§ 4º, da lei provincial nº 288, de 18 de março de 1846, anexou a capela de Santa Rita de Jacutinga ao município de Aiuruoca.
O art° V, da lei provincial nº472, de 31 de maio de 1850, incorporou a capela à freguesia de São José do Rio Preto.
O artº I, II, da lei provincial nº 544, de 07 de outubro, de 1851, trouxe-a para a paróquia de Nosso Senhor dos Passos do Rio Preto.

A PARÓQUIA

A paróquia foi criada em 02 de Junho de 1859, pela lei provincial nº 976, passando a pertencer ao município de Rio Preto.
Transferida a sede municipal para a Vila Bela do Turvo (Andrelândia), transferiu-se, naturalmente, para aquele município como se vê, do artigo 1º da lei provincial nº 1.191, de 21 de Julho de 1864.
Finalmente, a paróquia foi desmembrada do município de Vila Bela do Turvo, pelo artigo. 1º da lei provincial nº 1.644, de 13 de setembro de 1870, e incorporada ao município de Rio Preto, de onde foi desmembrada com o título de distrito, para, mais tarde, constituir-se em novo município mineiro.


CONSTITUIÇÃO DO PATRIMÔNIO DA IGREJA.


Antônio Francisco de Mendonça e sua mulher, dona Maria Vitoria Ribeiro, fizeram doação a Santa Rita, de um terreno limite de sua sesmaria, nas margens dos rios Bananal e Jacutinga, cujas terras confrontavam com a sesmaria dos herdeiros de Zacarias Dias da Silva e com terras dos doadores. Esse terreno contava cem braças de frente e cinqüenta de fundos. Já se construira a casa do capelão. Encontrava-se dentro do terreno doado.
A escritura foi passada em 13 de julho de 1835.
Secundando esse gesto, os herdeiros de Zacarias Dias da Silva, em escritura de 10 de outubro de 1835, revalidaram a dádiva feita pelo finado, de um terreno, constante de quarenta e quatro braças de testada.
"... para se arrancharem todas as pessoas que quiserem, sem ônus e sem pensão alguma, só com a condição de doar a Senhora Santa Rita aquilo que o coração de cada um lhe inspirasse”.

Desde então, em livro próprio, começaram a ser lavradas as escrituras de terras dadas em aforamento aos primeiros habitantes.
O primeiro terreno aforado no patrimônio de Santa Rita foi feito por José Joaquim de Andrade, em 13 de Julho 1835.


CONSTRUÇÃO DA CAPELA


Nesse ano de 1835, membros da família Gomes e Caetano, construíram a capela mor, propriamente dita, do templo destinado a Capela de Santa Rita de Cássia.


Os Ferreira da Cunha, vindos de São Domingos da Bocaina atual município de Lima Duarte, se estabelecem, nas imediações, com fazendas. Reúnem e constroem o corpo da futura Matriz. Ali repousam os restos mortais de seus construtores: ANTONIO TRISTÃO DA CUNHA, THEODORO FERREIRA DA CUNHA E MANOEL JOAQUIM FERREIRA DA CUNHA.


CAPELÃES


O primeiro sacerdote que serviu a capela curada Santa Rita de Jacutinga foi o padre Francisco de Paula Goulart. Tomou posse do curato, por volta dos 1840, administrando - o até 1845 Depois dele vieram: Padre Mariano Antônio Correia, de 1845 a 1850, padre Francisco Alves Magalhães, de 1850 a 1854; padre João Gomes Carneiro, de 1854 a 1858. E o padre José Joaquim de Carvalho, desde 1858. Quando Santa Rita de Jacutinga foi elevada a paróquia, servia, ele, ainda, como capelão.

ELEVAÇÃO A PARÓQUIA.

A carta de lei n°976, de 02 de junho de 1859, elevou à paróquia a capela curada de Santa Rita de Jacutinga, marcando suas divisas.
Foram estabelecidos os limites da nova paróquia. De um lado com a de Nosso Senhor dos Passos de Rio Preto, de outro, com a de Bom Jardim. Pelo de Livramento, hoje Liberdade, a linha divisória se iniciava no alto da serra da Mantiqueira, seguindo águas vertentes do córrego de São Bento, daí ao alto do Quilombo: desde a ponte do rio Bananal, na estrada do Carrijo, seguindo pela estrada até o alto da serra da Mira. Deste, por um serrote, fechar no rio Preto, na divisa da Fazenda Palmital, com herdeiros do finado Francisco Teodoro Rodrigues, ficando a dita Fazenda Palmital para o distrito de Santo Antônio de Passa Vinte, hoje cidade de Passa Vinte, e dos herdeiros citados para a paróquia de Santa Rita de Jacutinga.

VIGÁRIOS.

O padre que servia a então capela curada de Santa Rita de Jacutinga, Joaquim José de Carvalho, passou a ser o vigário paroquial, até 1862.
Depois dele serviram-na: padre Francisco de Paula Dias, até 1866, padre Benedito Afonso Alves de Medeiros, 1866 a 1870; padre Querino Gonçalves de Araújo Recife, de 1871 a 1877; padre Marciano Bernardes da Fonseca até 1946. Serviu a paróquia cerca de 59 anos consecutivos, fundando capelas, hospital, contribuindo para o crescimento do povoado até ele se transformar em uma sede municipal. Padre Rafael Laucó, de 1947 a 1949; padre José de Matos: e, atualmente
[1], padre Francisco José Machado Filho, que idealizou e conseguiu a construção da majestosa Matriz.
A paróquia de Santa Rita de Jacutinga pertenceu à arquidiocese de Mariana, até que, desta, foi desmembrada a diocese de Juiz de Fora, pela Bula adsacrosanta apostolatus, de Sua Santidade, o Papa Pio XI, de 1º de Fevereiro de 1924.
[1] Época em que foi redigido esse documentário. José Marinho de Araújo. Editado por FHOAA.